sábado, 24 de março de 2012

ATUALIDADE...5ª PARTE

c) “do fazer tarefas a fazer-se próximo/estar perto


Num mundo como o nosso, cansado de grandes discursos e já saturado de grandes relatos, se anseia e se grita por pessoas que vivam.
É isso que atrai, o que pode suscitar seguidores, o que tem poder de fascinar as pessoas e é capaz de suscitar uma interrogação: Por que essa maneira de ser? Como explicar essa vida? Estarão loucos? 

São as mesmas interrogações que se fazia sobre Jesus: O que o leva a proceder assim? De onde lhe vem tal autoridade? E não é preciso abrir a boca para isso, nem fazer sermões, nem declarar a doutrina cristã. É a vida que é cristã.

No fundo, vejam como essa maneira de ser e essa missão recolhe o que nos diz Jesus na parábola do Samaritano: essa espiritualidade é a espiritualidade de fazer- me próximo/estar perto dos outros. Portanto, a primeira missão dessa espiritualidade é o amor, a compaixão, partilhar a própria vida e o próprio ser. 

Dessa maneira – é o que vocês experimentam diariamente - o primeiro que levam às pessoas é o sentido, devolvem-lhes a dignidade, a possibilidade de acreditarem em si mesmas, de humanizarem-se, de recuperar a esperança. E, portanto, o sabor da vida. Parece pouco como missão? Claro, vocês “não fizeram nada’ (colégios, obras sociais, etc); não fizeram mais do que ‘estar’ com o povo: em suas lutas, na mesma vida, sofrendo com eles, inspirando-lhes esperança e sentido. Haverá melhor missão que essa?

Algo que parece tão simples, mas que os faz entrar de cheio no Evangelho. É o que Jesus dizia ao afirmar: vocês têm que ser fermento, têm que ser sal para dar sabor, luz que ilumine o tenebroso da vida. Dessa maneira ajudam as pessoas a verem no humano - tão esmagado e sofrido - o que não se vê. o invisível, Deus. Dessa maneira vocês os ajudam a crer no futuro com esperança, apesar de tudo aquilo que a realidade parece dizer. Esperar, como diz São Paulo, contra toda esperança. 

Mas isso só pode ser vivido a partir de Jesus e com ele: porque esperar contra esperança parece absurdo. A não ser que se possa dizer: não creio no que vejo (apesar de tudo que a realidade quer me fazer crer) porque o que não vejo - a vitória de Jesus ressuscitado - é a palavra última e definitiva sobre essa realidade. 

A realidade é muito mais do que alcanço ver. Por isso espero. De alguma maneira o mal se esgota e é vencido por Jesus, com sua maneira de crer e de esperar, de viver confiante e abandonado: “em tuas mãos”.

A grande missão da Fraternidade, creio eu, e sua grande novidade neste momento da Igreja e do mundo, é manter viva entre nós, na Igreja, a memória viva do Evangelho. E como isso se mantém? Vivendo-o. Assim o Evangelho se inscreve na vida. Um verdadeiro reescrever o Evangelho hoje que é, de certa maneira o quinto Evangelho feito carne na história. Se isso não é evangelizar, que será evangelizar?

4. Uma espiritualidade por estrear 

Num último passo, eu gostaria de fazer algumas reflexões a respeito do por que a espiritualidade, assim entendida, é uma espiritualidade para este século, para uma cultura a pós-moderna como a nossa e para esta sociedade. Sem dúvida, isso não quer dizer que tenha que ser a única espiritualidade. O espírito pode soprar de muitas maneiras.

Mas certamente é uma espiritualidade que tem como principal função ser uma espécie de ‘memória crítica’ ou ‘memória evangélica’ daquilo que é a Igreja ou tem que ser em termos cristãos, isto é, a forma evangélica de ser Igreja. Nesse sentido, eu diria que essa espiritualidade está por ser estreada, ela é recém-nova, embora vocês já a tenham vivido durante muitos anos. Que são cinqüenta, oitenta ou noventa anos na maneira de contar o tempo histórico? E insignificante. O tempo histórico se conta por milhões de anos. 

Creio que é muito importante perceber isso, porque é como uma semente que necessita muito tempo para germinar. Já caiu na terra, sem dúvida, e talvez hoje vocês já estejam vivendo uma primeira experiência daquilo que significa que o grão que cai na terra tem que morrer para dar fruto... Isso custa. E talvez vocês tenham a sensação de que está por morrer. Atrevo-me a crer que está por nascer, que está por ressuscitar, mas passando por aí: cair na terra, desaparecer, apodrecer para dar frutos.

Foi o que o Evangelho significou analogamente para os primeiros apóstolos. Eles o transmitiram, lançaram ao ar a semente da Palavra e tiveram que esperar com paciência até ver os primeiros frutos. O Evangelho não pegou assim de repente, embora os Atos dos Apóstolos nos digam que já no primeiro dia se converteram uns cinco mil com o discurso de Pedro. Mas não parece que tenha sido tão fácil.